segunda-feira, 24 de março de 2014

Assaltantes atiram e matam jovem em tentativa de roubo

VIOLÊNCIA

A vítima voltava de uma festa com amigos quando o veículo onde ele estava foi abordado por assaltantes

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O corpo de Raphael Lopes foi velado na casa dos avós, em Messejana. No fim da tarde, parentes e amigos seguiram para o cemitério Jardim Metropolitano, onde ocorreu o enterro FOTO: LUCAS MOURA
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Tido como uma pessoa muito solícita, Raphael tornou-se querido de todos que o conheciam. Segundo os amigos, ele gostava de festas e de reunir os amigos para assistir aos jogos do Ceará
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No último dia 19, o estudante Mardônio Júnior foi morto por bandidos em um assalto. Dois dias antes, a vítima foi o delegado Lucas Craveiro
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Sob clima de muita dor e revolta, Raphael Lopes Máximo, 28, foi sepultado, no final da tarde de ontem, no cemitério Jardim Metropolitano, em Eusébio. Ele foi atingido por dois tiros, por volta de 3h30, quando retornava de um lual no Porto das Dunas, em Aquiraz.
Raphael Lopes estava no banco de trás do carro de um amigo, um estudante de Engenharia. O veículo, um Pálio de cor cinza, trafegava pela Avenida Odilon Guimarães, quando, próximo ao número 2000, no Parque São Miguel, o condutor viu pedras e uns homens no meio da avenida. Chegou a pensar que se tratasse de uma blitz. Ao perceber que eram assaltantes, o rapaz acelerou e os bandidos atiraram. Os tiros atingiram Raphael Lopes na axila e no peito. Ele chegou a ser levado ao Hospital Distrital Edmilson Barros Oliveira, o "Frotinha" de Messejana, entretanto não resistiu.
Medo
No local onde ocorreu a tentativa de assalto que resultou na morte de Raphael Lopes, os moradores não escondem o medo de falar, mesmo com a garantia de que o anonimato será preservado. Um comerciante, porém, contou que, na noite do último dia 18, véspera do feriado de São José, passava também pela Avenida Odilon Guimarães, quando avistou homens no meio da via.
Ele notou que eram assaltante, mandou a esposa se abaixar e acelerou. O homem percebeu que um dos bandidos não se afastou. "Eu desviei e ele apontou a arma pro meu carro. Me abaixei também e continuei acelerando, mas ele não atirou".
O corpo de Raphael Lopes foi velado na casa dos avós, na Rua Brás Vidal, em Messejana. Os amigos não escondiam a indignação. Todos estavam revoltados com a onda de violência, que a cada dia tira vida de pessoas de bem e, principalmente, jovens.
O representante comercial Luís Sampaio, 32, amigo de infância de Raphael Lopes, falou em nome da família. "A gente espera que não seja só mais um caso. A Polícia precisa se empenhar, pra dar uma resposta".
Raphael Lopes seguia no carro com mais quatro pessoas. O condutor estava com a namorada ao lado. A vítima viajava no banco traseiro, na companhia de duas amigas. Outra ocupante do veículo, ainda em estado de choque, conversou com a reportagem e falou sobre a ação.
Ela disse que a família teme alguma represália por parte dos assaltantes. "Por muito pouco não fui vítima. Ele estava sentado no banco atrás do meu. E uma das balas se alojou no meu banco. Ainda senti o impacto. Também atingiu o painel", disse a jovem. O rapaz que dirigia o Palio foi ao velório, entretanto ainda encontrava-se abalado e não falou com a Imprensa. "Ele se tremia todo", lembrou Sampaio.
As pessoas que conheciam o rapaz e compareceram ao velório também falaram da onda de assaltos na área, principalmente na Avenida Odilon Guimarães, no trecho daquela via que passa pelo Parque São Miguel.
Tido como uma pessoa muito solícita, Raphael Lopes tornou-se querido de todos que o conheciam, principalmente porque nasceu e se criou e começou a trabalhar em Messejana.
"Pra ele, não tinha tempo ruim. Ele sempre estava pronto pra ajudar. Não gostava de ver ninguém triste", foi dessa forma que Luís Sampaio o definiu.
Raphael gostava de festas e de futebol. Ele era torcedor fanático do Ceará. Sempre que o time de coração jogava fora, ele reunia os amigos para que pudessem assistir aos jogos juntos. O caixão estava coberto com a bandeira do alvinegro.
Investigação
O diretor da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), delegado Luiz Carlos Dantas disse que somente foi informado do crime no início da manhã de ontem.
O inquérito policial já foi instaurado na DHPP, entretanto Dantas e o delegado Ricardo Romagnoli, diretor adjunto da DHPP, ainda vão decidir se as investigações sobre esse crime serão realizadas pelos inspetores daquela Divisão ou do 35º DP (Curió), responsável pela área do Conjunto São Miguel.
24 latrocínios foram registrados no Estado do Ceará em menos de 3 meses

O Estado do Ceará já registrou 24 latrocínios (roubos seguidos de morte) neste ano, segundo dados parciais da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Destes, 16 ocorreram na Grande Fortaleza (capital e região metropolitana).
Em janeiro foram anotados dez casos de latrocínios, em fevereiro seis, e oito neste mês. Nos últimos nove dias, cinco pessoas foram assassinadas em assaltos ou tentativas de roubos.
A sequência começou na última sexta-feira (14), quando uma quadrilha invadiu um depósito de construção no Parque Potira, em Caucaia, para assaltar, e matou o sargento da reserva da Polícia Militar, José Edson Andrade, que trabalhava no local e acabou morto.
Em outra ação de criminosos, o delegado de Polícia Civil do estado do Piauí, Lucas Craveiro Alves, 33, foi morto durante uma tentativa de assalto quando saía de uma lanchonete na Avenida Washington Soares, no Guararapes, na segunda-feira (17).
O delegado estava em um automóvel Jetta de cor branca, quando foi abordado por cinco assaltantes que tentaram levar o carro. Lucas Craveiro reagiu ao assalto, ainda conseguiu balear um dos suspeitos, mas foi morto com seis disparos. Os cinco suspeitos foram presos. Um dia depois da morte de Lucas, o comerciante Francisco Dantas também acabou morto e um policial de folga foi baleado em um assalto a um depósito de material de construção, em Itaitinga.
As mortes em decorrências de assaltos continuaram na última quarta-feira (19). A vítima foi o estudante do 5º semestre de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mardônio Júnior. O universitário foi morto no bairro Henrique Jorge, durante um assalto. Dois adolescentes e um adulto teriam invadido o automóvel HB20 do universitário e retiraram seus pertences. Mardônio foi baleado na nuca e morreu. Dois adolescentes acabaram apreendidos suspeitos do crime e um adulto identificado.
Na última sexta-feira (21), o vendedor ambulante Francisco Marquez Araújo de Souza,51, foi morto no bairro Parque Araxá, por dois usuários de droga que roubaram a quantia de R$ 5,00. Um dos suspeitos foi preso pelos inspetores do 3º DP (Otávio Bonfim) e autuado em flagrante por crime de latrocínio.
Inseridos
Para o sociólogo e coordenador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Barreira, esses casos estão inseridos no que ele definiu como "violência difusa", ou seja, um tipo de violência onde todos nós estamos sujeitos a sofrer práticas violentas. "Podemos estar dentro de casa, na rua, em um restaurante. Pessoas mais velhas, mais novas, ricas, pobres, terminam sofrendo com a violência. "Esses casos (latrocínios) estão inseridos dentro desse contexto da violência difusa. Uma característica dessas ações (matar), que definem um determinado tipo de imposição do temor. É como se ele dissesse: Se você não se dobrou diante do meu poder, que é o de lhe roubar, eu lhe mato. Isso demonstra que as pessoas não podem reagir. É uma espécie de articulação, um complô, das pessoas que cometem esses delitos", explicou Barreira.
A Ordem dos Advogados do Brasil - Secção Ceará (OAB-CE) está lançando hoje, o Fórum Permanente de Debates e Propostas contra a Violência, reunindo entidades ligadas aos temas da segurança e da justiça.
O Fórum será instalado com uma entrevista coletiva, às 10 horas, na sede da OAB-CE, com a presença do presidente da Ordem, Valdetário Monteiro, e demais representantes das entidades do colegiado, entre elas Associação Cearense dos Magistrados (AMC), Associação Cearense do Ministério Público (ACMP) e Associação dos Delegados de Polícia do Estado do Ceará (Adepol). Os integrantes do Fórum falarão sobre os índices de violência no Estado e as políticas públicas de enfrentamento do problema.
Segundo o presidente da OAB-CE, Valdetário Monteiro, o Fórum Permanente de Debates e Propostas contra a Violência se reunirá uma vez por semana, às segundas-feiras, para coletar novos dados sobre a violência e avaliar as políticas públicas implantadas nos níveis municipal, estadual e federal.
Fernando Barbosa
Jessika Sisnando
Repórter/redação web

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