segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

IMPRESSÃO DIGITAL

Software ajuda a solucionar crimes

O AFIS já conta com 80 mil registros de digitais de pessoas que foram mapeadas no banco de dados criminal

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O perito Paulo Harison Medeiros diz que a demanda que chega ao Laboratório de Papiloscopia tem aumentado, por isto, o espaço será ampliado
FOTOS: HELENE SANTOS
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Em contato com o reagente adequado, que pode ser um pó, um composto químico ou uma luz, as impressões digitais são reveladas e digitalizadas para o confronto
A partir do sexto mês de vida, o feto começa a passar por modificações neurovasculares, que determinam qual será a sua impressão digital. A marca de cada indivíduo, tecnicamente chamada datilograma, é única e imutável durante a vida. Pelo fato de identificar alguém com tanta precisão, a análise das impressões digitais é largamente utilizada na elucidação de crimes. No Ceará, existe um Núcleo de Papiloscopia, ligado à Coordenadoria de Identificação Humana e Perícias Biométricas, que já conta com um banco de dados com cerca de 80 mil digitais cadastradas.
O perito papiloscopista Paulo Harison Medeiros de Carvalho explica que as chances de que o exame de um datilograma não forneça a identidade precisa de uma pessoa são praticamente nulas. "Não existe impressão digital igual. Gêmeos univitelinos têm impressões diferentes; se for feito o clone de uma pessoa, as impressões digitais dela e do clone serão diferentes. Estes traços se formam de acordo com fenômenos ocorridos na gestação, então, é necessário que uma pessoa seja gerada passando exatamente pelos mesmos episódios que você para que ela tenha desenhos iguais. Todos os eventos devem ser os mesmos, nem um movimento pode ser diferente", explica Paulo Harison.
Um software desenvolvido pelo FBI, a agência federal de investigação norte-americana, que confronta impressões digitais, foi implantado no Ceará para facilitar as investigações de crimes violentos como homicídios, roubos, arrombamentos e estupros. O Automated Fingerprint Identification System (AFIS), em português Sistema Automatizado de Identificação de Impressão Digital, já está em uso há cerca de um ano. O banco de dados criminal do Estado já foi totalmente integrado ao programa.
"A autoridade policial que vai até o local do crime recolhe o que considera importante e nos envia os objetos que podem ter as digitais do culpado. Revelamos as impressões e elas passam por um processo de digitalização. A partir daí, submetemos o resultado ao AFIS e o programa faz o cruzamento de dados. Se a impressão revelada por nós bater com a de alguma das 80 mil pessoas cadastradas, o suspeito será imediatamente identificado", revelou o perito.
O papiloscopista diz que a ideia é que o banco de dados Civil também seja integrado ao AFIS, o que aumentará muito as chances de que o software identifique suspeitos de crimes.
"Com a integração ao banco de dados civil, basta que o suspeito tenha um RG que ele será identificado. Quando você vai tirar a carteira de identidade suas digitais ficam arquivadas e isto já as tornará passíveis de um confronto. Será uma revolução nas investigações de crimes violentos", considerou Paulo Harison.
Preservação
O papiloscopista lembra da necessidade da preservação do local do crime, para que os vestígios deixados pelo suspeito não sejam violados. O tempo que uma impressão digital pode ficar gravada depende da superfície tocada. No papel, por exemplo, pode ser revelada uma impressão digital que tenha sido deixada há até dois anos. Em tecidos, no entanto, a revelação só é possível até cerca de uma semana após o contato.
"O importante é que nenhum objeto seja desprezado. Em qualquer lugar pode haver uma digital. A olho nu elas podem não estar visíveis, mas quando entram em contato com um reagente, que pode ser um pó, um composto químico ou uma luz, elas são reveladas e possibilitam que nós façamos o cruzamento de dados", disse Carvalho.
O perito lembra que o calor, a umidade e o vento podem também interferir na preservação das digitais. Neste caso, é preciso que os objetos apreendidos sejam enviados à Perícia Forense do Ceará (Pefoce) protegidos por plásticos.
Interior
Paulo Harison Medeiros conta que a demanda que tem chegado ao Laboratório de Papiloscopia é cada vez maior e que as autoridades policiais das Cidades de Interior também estão se interessando pelo uso do software, que pode apontar com precisão o suspeito de um delito.
"Antes, nossa demanda era muito baixa no tocante à área criminal. Nosso trabalho era mais voltado para a identificação dos mortos que davam entrada na Coordenadoria de Medicina Legal (Comel), sem documentos. Com a implantação do AFIS e os resultados que fomos apresentando, cada vez mais delegados têm nos procurado. Temos recebido, inclusive, muita coisa do Interior do Estado. Isto é motivo de alegria, porque nosso intuito é realmente colaborar, contribuir. Nosso espaço já está ficando pequeno para tanta coisa e o laboratório vai passar por uma expansão, para acomodar adequadamente os equipamentos e objetos analisados".
Necropapiloscopia
Além da parte criminal, os 12 papiloscopistas da Pefoce também fazem um trabalho junto aos cadáveres que dão entrada na Comel, vítimas de violência. De todas os corpos são colhidas impressões digitais.
"Temos um caso de um corpo que nós colhemos digital, submetemos ao AFIS e descobrimos que ele tinha sete identidades e respondia por crimes na Justiça com todos esses nomes. Comunicamos à Polícia que os mais de 20 inquéritos em nome dessas pessoas podiam ser parados, porque na verdade, eles se referiam ao mesmo homem, que estava morto", contou Medeiros.
Márcia Feitosa
Repórter

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